João - O Rosto deste País

João - O Rosto deste País

Autor(a) Gonçalo Afonso Dias

Galeria Pública Fotojornalismo

Upload 2012-08-23 11:45

Visitas 682


Exif/Informação Técnica

Model Canon PowerShot G12
Date/time original 22-08-2012 19:36:20
Shutter speed value 1/202 s
Aperture value f/3.5
ISO speed ratings ISO 200
Exposure bias value 0.00 eV
Metering mode Pattern
Flash Flash did not fire, compulsory flash mode
Focal length 9.784 mm
White balance Manual white balance


Resumo

Esta é a segunda fotografia que aqui publico deste senhor – o Sr. João
Na primeira “João - tem nome e tem rosto” (http://olhares.sapo.pt/joao-tem-nome-e-tem-rosto-foto5359315.html) reportei essencialmente a situação deste homem atirado para a rua – A Rua do Murtal - onde trabalho todos os dias em S. Pedro do Estoril, e a minha revolta perante a indiferença atroz da nossa sociedade com estas pessoas.
Nesta imagem fotográfica o foco está nas mãos do João, deixando num plano menos focado a sua cara, a sua identidade. As mãos cruzadas sobre o peito numa gesto de resignação, de desistência.
Da janela do meu atelier vejo-o todos os dias, a todas as horas. Vejo as pessoas a passarem no passeio desabrigado que ele adoptou como “casa, a passarem por ele sem olhar, como se deu saco de lixo se tratasse. Outras param mas não é para olhar para ele… observam atentamente uma pequena obra que ali está a ser feita a dois passos…
Ontem enquanto almoçava no restaurante que referi no resumo da primeira fotografia que lhe fiz não consegui desviar o olhar deste homem com cara de fome e de morte.
Não consegui comer e desabafei com o meu parceiro de almoço – Já viste? Estamos aqui a comer e à nossa frente está um homem que já não sabe o que isso é há muito tempo.
O calor era muito. A roupa que ele veste – a única que tem – é quente, é de inverno…
Dia após dia tenho tentado a aproximação, sempre difícil, a este senhor com a intenção de conseguir falar com ele, de perceber o que ele sente e como o poderei ajudar.
Saí do restaurante e deixei o prato como me foi servido… Comprei na mercearia do Armando uma garrafa de água para o tentar hidratar já que o sol e o álcool o estavam a secar.
Cheguei-me a ele. Chamei-o pelo nome. Abriu os olhos numa expressão de espanto mas de medo também. Molhei-lhe a cabeça como se faz a uma criança. Despertou.
Ao mesmo tempo passava um sujeito que aparentemente sabia quem ele era e que exclamou – “Com água ainda o mata! Dê-lhe vinho que é o que ele quer !”.
Respondi-lhe com a dureza que se impunha e principiei a falar com o Sr. João.
Perguntei-lhe se se sentia bem, disse-lhe que não podia ficar ali ao sol, que isso o podia matar.
Foi acordando aos poucos, ao ritmo das minhas palavras. Pediu-me um cigarro e disse-me que tinha fome. O meu companheiro e meu colaborador que estava comigo foi comprar uma sandes de fiambre à mercearia. Comeu-a devagar e acedeu ao meu pedido de ir dando pequenos goles de água – pequenos porque aquele estômago vazio não suportaria mais do que isso.
Depois falou… Mesmo empasteladas pelo vinho as palavras que disse eram de um homem com um vocabulário desenvolvido, as frases bem construídas, os verbos nos tempos correctos. Um homem que leu, que estudou, que reflectiu sobre a vida antes de se cansar dela.
Perguntou-me o que queria… Quero ajudar-te, disse-lhe. Mas para isso tens de me deixar ajudar. Falou em Deus, com fé, como se fosse (e é a sua derradeira fuga). Enquanto falávamos pedia-me cigarros que eu negociava com pequenos goles de água.
Perguntei-lhe a idade. Começou a chorar…
52 anos, apenas mais 4 do que eu.
- Chora João, faz bem – eu também choro, não é vergonha nenhuma.
Falou da guerra, falou dos filhos… Falou dos amigos que já não tinha…
Agora tens, disse-lhe já emocionado. Amanhã quero ver-te um bocadinho melhor, pedi-lhe.
O tempo passou, as pessoas também, indiferentes mas admiradas por me verem sentado ao lado dele.
Um homem na condição do João não se consegue ajudar com bens, com roupas ou dinheiro.
Apenas a palavra, a persistência, a atenção que não tem, podem levá-lo a ganhar forças para levantar a cabeça e seguir em frente. Assim o espero.

Comentarios

Esta foto foi comentada 18 vezes

  1. joao bajouco
    joao bajouco em 2012-11-24 | denunciar

    Muitos parabéns Gonçalo pelo duplo trabalho, bela foto e belo trabalho em prol de quem mais necessita!!! bons clicks

  2. Patrick
    Patrick em 2012-09-14 | denunciar

    FANTÁSTICA FOTO
    PARABÉNS

  3. José M. S. Oliveira

    Assim assim.

  4. josé casimiro
    josé casimiro em 2012-08-26 | denunciar

    Voltámos ao tempo de intervenção - dever-se-ia ter abdicado dela? - à velha questão do papel da arte na sociedade.
    Este conjunto imagem/texto é elucidativo, para quem tiver dúvidas.
    Grato pela partilha e resto de Bfs!

  5. Jorgebarricas
    Jorgebarricas em 2012-08-25 | denunciar

    gosto pbs

  6. Conta Cancelada
    Conta Cancelada em 2012-08-25 | denunciar

    Fica-se sem palavras.

  7. Marina Aguiar
    Marina Aguiar em 2012-08-25 | denunciar

    Um texto que mais uma vez nos revela a pessoa grandiosa que és. Como o mundo seria melhor se todos assim se preocupassem! Nem sei o que dizer-te Gonçalo. Comoveste-me imenso. Oxalá o Sr. João encontre um rumo na vida. Excelente e importante trabalho, o teu.

  8. Renato Cruz
    Renato Cruz em 2012-08-24 | denunciar

    Um GRANDE Gesto da Tua parte...sem duvida, Gonçalo.
    Abraço.

  9. ViriatoCaramba
    ViriatoCaramba em 2012-08-24 | denunciar

    Mais um sulco nas nossas consciências. Imensurável esta imagem.
    Já disseste tudo, e além disso a fotografia fala sem parar. Uma das grandes fotografias que tenho visto ultimamente. Um abraço.

  10. DALIDA
    DALIDA em 2012-08-23 | denunciar

    Tens um coração BIG!!!

    Resposta de Gonçalo Afonso Dias em 2012-08-24

    Obrigado amiga.

  11. JOAO CLEMENTE
    JOAO CLEMENTE em 2012-08-23 | denunciar

    Este ato vale ouro, se fosse uma regara e não uma excessão tudo seria melhor...
    É mais facil ignorar do que ajudar...
    Parabens por ser humano onde o ser humano esquece o que é ser humano...

  12. Jorge Neto
    Jorge Neto em 2012-08-23 | denunciar

    O que fozest foi muito bom. o João pelo menos percebeu que alguém se interessa por ele. Pode ser uma boa ajuda para um reomeço. Pelo menos para um repensar a vida. Estou muito impressionado, apesar de saber que há muito Joões nesta vida (e cada vez mais).

    Resposta de Gonçalo Afonso Dias em 2012-08-24

    Há muitos, cada vez mais... E cada vez mais a indiferença, o escárnio e a discriminação ajuda a destruir o resto, o pouco que resta da dignidade detas pessoas.
    Cometemos um erro fatal - esquecemo-nos que amanhã podemos também estar deitados, esquecidos, num passeio de uma rua qualquer.
    Um abraço e obrigado.

  13. Carlos Gomes
    Carlos Gomes em 2012-08-23 | denunciar

    Verdadeiramente emocionante... força!

    Resposta de Gonçalo Afonso Dias em 2012-08-24

    Faltam-me as forças... falta-me tudo perante esta ignóbil realidade. Por enquqnto ainda tenho energia para fotografar, para denunciar, mesmo que isso de nada sirva

  14. Ana Paula Silva
    Ana Paula Silva em 2012-08-23 | denunciar

    Sem palavras..

    Resposta de Gonçalo Afonso Dias em 2012-08-24

    palavras para quê?... obrigado.

  15. Elsa Martins
    Elsa Martins em 2012-08-23 | denunciar

    Não tem palavras...apenas lágrimas.
    Beijo No teu enorme coração.
    Gosto muito de ti.

    Resposta de Gonçalo Afonso Dias em 2012-08-24

    Um beijo para ti também com toda a admiração que tenho por ti.

  16. José Rocha
    José Rocha em 2012-08-23 | denunciar

    Li e reli!!

    Tocou-me e emocionou-me…

    Percebo bem o que sentiste e sentes, curiosamente no mesmo dia que fizeste a publicação revelando quem era este pobre homem fiz uma publicação a que intitulei “A Indiferença…” abordando esta temática, pensei muito antes de a fazer, o tema é polémico mas é necessário despertar consciências, revelar esta realidade, infelizmente, cada vez mais comum…

    Há cerca de um ano e meio com um grupo de amigos e conhecidos ajudei a fundar, aqui no Porto, uma associação de solidariedade a “Amigos da Rua – Associação de Solidariedade” cuja principal valência é a ajuda aos mais necessitados, com especial incidência nos “sem-abrigo” e nas crianças mais desprotegidas. Recolhemos roupas e alimentos (em colaboração com diversos restaurantes, cafés, pastelarias e outras instituições) e todas as segundas feiras vamos distribuir por aqueles que pouco ou nada têm! A todos eles damos uma palavra amiga (talvez o que mais falta lhes faz…), recebemos, muitas vezes, um sorriso, efémero é certo…, mas não há nada que pague isso!

    As palavras que com ele trocaste foi o melhor que lhe podias ter dado, acredita… a tua diferença na indiferença generalizada é um gesto que cala bem fundo….!

    Por certo não mudaremos o Mundo, mas ele será, seguramente, um pouco melhor e terá mais sorrisos… daqueles sinceros e únicos!!

    Um Abraço sentido!!!

    Bem Hajas!!!

    Resposta de Gonçalo Afonso Dias em 2012-08-24

    Obrigado meu caro amigo. Por tudo.

  17. Marla
    Marla em 2012-08-23 | denunciar

    Não desista, Gonçalo...

  18. jaag26
    jaag26 em 2012-08-23 | denunciar

    Força Gonçalo, não desistas...um grande abraço!

    Resposta de Gonçalo Afonso Dias em 2012-08-24

    Eu não desisto... Abraço.