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Cynthia Dorneles
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Paisagem Natural/lugares impossíveis
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lugares impossíveis

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Paisagem Natural

2013-04-20 12:27:01
comentários (36) galardões descrição exif favorita de (14)
descrição
O título de um capítulo chamado "Turistas e Vagabundos: Os Heróis e as Vítimas da Pós-Modernidade" do livro O Mal Estar da Pós Modernidade de Zygmunt Bauman é instigante em si, como aliás o são os títulos de seus livros em geral ("Amores Líquidos", "Modernidade Líquida", "Sobre Educação e Juventude" etc).

A coleção de ensaios de Bauman varia de tema, mas geralmente seus ensaios dão o retrato crítico da sociedade contemporânea e como o homem constrói sua identidade e suas relações num mundo onde não se tem mais estabilidade de forma alguma, nem planos de carreira, famílias estruturadas ou relações duradouras de qualquer espécie.

Quem for mais observador, reparará que costumo escrever, desde o tempo que ninguém me visitava e eu tinha uma maquinazinha mais baratinha e fazia fotos com zero photoshop, que sou uma turista acidental.

A minha auto-definição como turista, na verdade deriva-se de minhas leituras deste autor. É uma espécie de piada particular porque de certa forma sou mesmo uma turista- dentro da definição conceitual de Bauman- mas sou também o inverso do que ele conceitua, porque eu seria uma turista que construiu para si o inverso do universo que almeja um turista (dentro da definição do autor e não a do dicionário).

Claro que muitos devem estar familiarizados com Bauman e outros não. Então, aos que sim, podem pular este trecho, onde citarei alguns trechos do autor para construir seu conceito e partam logo para conclusão que darei ao final. Aos que se interessem, sigam a leitura que espero ser tão instigante para vocês como foi para mim.

"No jogo da vida dos homens e mulheres pós-modernos, as regras do jogo não param de mudar no curso da disputa. A estratégia sensível, portanto, é manter curto cada jogo- de modo que um jogo da vida sensatamente disputado requer a desintegração de um jogo que tudo abarca, com prêmios enormes e dispendiosos, numa série de jogos estreitos e breves, que só os tenha pequenos e não demasiadamente preciosos. Para novamente citar Christopher Lasch, a determinação de viver um dia de cada vez, e de retratar a vida diária como uma sucessão de emergências menores, se tornaram os princípios normativos de toda estratégia de vida racional.

Manter o jogo curto significa tomar cuidado com os compromissos a longo prazo. Recusar-se a "se fixar" de uma forma ou de outra. Não se prender a um lugar, por mais agradável que a escala presente possa parecer. Não se ligar a vida a uma vocação apenas. Não jurar coerência ou lealdade a nada ou a ninguém. Não controlar o futuro, mas se recusar a empenhá-lo: tomar cuidade para que as consequências do jogo não sobrevivam ao próprio jogo e para renunciar à responsabilidade pelo que produzam tais consequências. Proibir o passado de se relacionar com o presente. Em suma, cortar o presente nas duas extremidades, separar o presente da história. Abolir o tempo em qualquer outra forma que não a de um ajuntamento solto, ou uma sequência arbitrária, de momentos presentes: aplanar o fluxo do tempo num presente contínuo."

"Consequentemente já não há "para frente"ou "para atrás", o que conta é a habilidade de se mover e não ficar parado. Adequação - a capacidde de se mover rapidamente onde a ação se acha e estar pronto a assimilar experiências quando elas chegam- tem precedência sobre a saúde, essa ideia do padrão de normalidade e de conservar tal padrão estável, incólume"

"O eixo da estratégia de vida pós-moderna não é fazer a identidade deter-se- mas evitar que se fixe"

"A figura do turista é a epítome dessa evitação. De fato, os turistas que valem o que comem são os mestres supremos da arte de misturar os sólidos e desprender o fixo. Antes e acima de tudo, eles realizam a façanha de não pertencer ao lugar que podem estar visitando: é deles o milagre de estar dentro e fora do lugar ao mesmo tempo. O turista guarda sua distância, e veda a distância de se reduzir à proximidade. É como se cada um deles estivesse trancado numa bolha de osmose firmemente controlada; só coisas tais comoas que ele ou ela permitem podem vazar.... o turista está protegido. Viajando despreocupadamente, com apenas uns poucos pertences necessários à garantia contra a inclemência dos lugares estrangeiros, os turistas podem sair de novo a caminho, de uma hora para outra, logo que as coisas comecem a escapar do controle, ou quando o seu potencial de diversão parece ter-se exaurido, ou quando aventuras mais excitantes acenam de longe.....A essa aptidão os turistas dão o nome de liberdade, autonomia ou independência e prezam isso mais do que qualquer outra coisa, uma vez que é conditio sine qua non de tudo o que seus corações mais desejam"

Fim das citações. E agora eu mesma.

Se vocês observarem bem, a fotografia é uma das mais importantes peças da vida do turista e nunca vimos tanta gente fotografando e viajando, compartilhando suas fotos no Facebook (ou Orkut, ou Olhares, ou quaisquer outros sites) etc. Todos fazem esta espécie de jornal de si mesmo, contando onde estiveram, com quem, como e sempre as coisas parecem fluir sem qualquer definição maior por parte do "turista".

Na verdade, apesar de viajar muito e adorar fotografia, sou o inverso do turista- nesta conceituação de Bauman.

Primeiro porque meu tempo de estadia em cada lugar onde vou é sempre superior aos famosos 3 ou 4 dias que as excursões e afins reservam aos seus participantes. Segundo que minhas viagens sempre acontecem como visitas aos meus amigos e não fico apenas visitando os pontos turísticos e sim interagindo com meus amigos, com os quais sou envolvida geralmente antes e depois destas viagens, por muitos anos (salvo uma ou outra excessão).

Mas o terceiro e principal ponto é que sou uma pessoa com uma vida bastante estabelecida. Tenho uma família, que freqüento e me freqüenta, tenho amigos que me acompanham há pelo menos 30 anos, tenho uma carreira estabelecida já há mais de 30 anos. Vou nos mesmos restaurantes- enquanto eles duram. Faço os mesmos passeios, corro todos os dias pela manhã, meu corpo é sólido e minha vida é firme.

Ao longo destes meus 53 anos de vida, publiquei diversos livros, fiz vários cds como cantora e compositora e apesar de só ter feito um curso de fotografia do ano passado para cá e só ter comprado uma máquina boa no ano passado, já faço fotografia há muito mais tempo.

Sobre fotografia, como bem me disse um professor de fotografia analógica no Maranhão, ou se tem empatia ou não com uma foto. Às vezes acompanho as imensas discussões de alguns autores com outros aqui no site sobre aspectos técnicos da fotografia, mas preto no branco isto é de importância relativa.

No Maranhão, vive uma amiga de dezenas de anos, Marilia de la Roche, jornalista, uma brasileira que vivia na França e tornou-se cidadã francesa, espírito crítico e uma verdadeira guerrilheira cultural ambulante, que com frequência ganha prêmios de fotografia no Brasil e fora do Brasil, fazendo suas fotos numa máquina muito simples, barata mesmo, com fotos que muitas vezes contém erros de fotometria etc mas de uma força em suas imagens que raramente vejo por aí.

Marilia de La Roche jamais faz photoshop em suas fotos e os concursos onde entra (e muitas vezes ganha e os prêmios são em dinheiro real) exigem que as fotos sejam livres de photoshop.

São pura fotografia, sem este negócio de máquina cara que consegue fazer o impossível pela própria potência da máquina ou esta brincadeira divertida chamada photoshop que falseia completamente o que realmente foi uma foto em seu original.

Marilia não é turista. Ela tem seus pés fincados na terra e na realidade dura da vida. Suas fotos têm uma força que primeiro vem do que ela faz questão de registrar e da espontaneidade das suas fotos. Mas vale para as fotos de Marilia o mesmo que para qualquer foto: ou bem se tem empatia ou não.

É isto o que tenho para dizer.

Na verdade, meu turismo está mais para peregrinação do que para turismo.
exif / informação técnica
Máquina: Canon
Modelo: Canon EOS REBEL T3i
Exposição: 1/200
Abertura: f/7.1
ISO: 100
MeteringMode: Spot
Flash: Não
Dist. Focal: 17 mm
Dist. Focal 35mm: 153.85 mm
Software: Adobe Photoshop CS5 Macintosh

uma pessoa que vai fundo no que faz e no fundo de si mesma a cada passo
favorita de 14
galardões
  • galardão visitas
    1000
    visitas
  • galardão popular
    foto
    popular
lugares impossíveis
O título de um capítulo chamado "Turistas e Vagabundos: Os Heróis e as Vítimas da Pós-Modernidade" do livro O Mal Estar da Pós Modernidade de Zygmunt Bauman é instigante em si, como aliás o são os títulos de seus livros em geral ("Amores Líquidos", "Modernidade Líquida", "Sobre Educação e Juventude" etc).

A coleção de ensaios de Bauman varia de tema, mas geralmente seus ensaios dão o retrato crítico da sociedade contemporânea e como o homem constrói sua identidade e suas relações num mundo onde não se tem mais estabilidade de forma alguma, nem planos de carreira, famílias estruturadas ou relações duradouras de qualquer espécie.

Quem for mais observador, reparará que costumo escrever, desde o tempo que ninguém me visitava e eu tinha uma maquinazinha mais baratinha e fazia fotos com zero photoshop, que sou uma turista acidental.

A minha auto-definição como turista, na verdade deriva-se de minhas leituras deste autor. É uma espécie de piada particular porque de certa forma sou mesmo uma turista- dentro da definição conceitual de Bauman- mas sou também o inverso do que ele conceitua, porque eu seria uma turista que construiu para si o inverso do universo que almeja um turista (dentro da definição do autor e não a do dicionário).

Claro que muitos devem estar familiarizados com Bauman e outros não. Então, aos que sim, podem pular este trecho, onde citarei alguns trechos do autor para construir seu conceito e partam logo para conclusão que darei ao final. Aos que se interessem, sigam a leitura que espero ser tão instigante para vocês como foi para mim.

"No jogo da vida dos homens e mulheres pós-modernos, as regras do jogo não param de mudar no curso da disputa. A estratégia sensível, portanto, é manter curto cada jogo- de modo que um jogo da vida sensatamente disputado requer a desintegração de um jogo que tudo abarca, com prêmios enormes e dispendiosos, numa série de jogos estreitos e breves, que só os tenha pequenos e não demasiadamente preciosos. Para novamente citar Christopher Lasch, a determinação de viver um dia de cada vez, e de retratar a vida diária como uma sucessão de emergências menores, se tornaram os princípios normativos de toda estratégia de vida racional.

Manter o jogo curto significa tomar cuidado com os compromissos a longo prazo. Recusar-se a "se fixar" de uma forma ou de outra. Não se prender a um lugar, por mais agradável que a escala presente possa parecer. Não se ligar a vida a uma vocação apenas. Não jurar coerência ou lealdade a nada ou a ninguém. Não controlar o futuro, mas se recusar a empenhá-lo: tomar cuidade para que as consequências do jogo não sobrevivam ao próprio jogo e para renunciar à responsabilidade pelo que produzam tais consequências. Proibir o passado de se relacionar com o presente. Em suma, cortar o presente nas duas extremidades, separar o presente da história. Abolir o tempo em qualquer outra forma que não a de um ajuntamento solto, ou uma sequência arbitrária, de momentos presentes: aplanar o fluxo do tempo num presente contínuo."

"Consequentemente já não há "para frente"ou "para atrás", o que conta é a habilidade de se mover e não ficar parado. Adequação - a capacidde de se mover rapidamente onde a ação se acha e estar pronto a assimilar experiências quando elas chegam- tem precedência sobre a saúde, essa ideia do padrão de normalidade e de conservar tal padrão estável, incólume"

"O eixo da estratégia de vida pós-moderna não é fazer a identidade deter-se- mas evitar que se fixe"

"A figura do turista é a epítome dessa evitação. De fato, os turistas que valem o que comem são os mestres supremos da arte de misturar os sólidos e desprender o fixo. Antes e acima de tudo, eles realizam a façanha de não pertencer ao lugar que podem estar visitando: é deles o milagre de estar dentro e fora do lugar ao mesmo tempo. O turista guarda sua distância, e veda a distância de se reduzir à proximidade. É como se cada um deles estivesse trancado numa bolha de osmose firmemente controlada; só coisas tais comoas que ele ou ela permitem podem vazar.... o turista está protegido. Viajando despreocupadamente, com apenas uns poucos pertences necessários à garantia contra a inclemência dos lugares estrangeiros, os turistas podem sair de novo a caminho, de uma hora para outra, logo que as coisas comecem a escapar do controle, ou quando o seu potencial de diversão parece ter-se exaurido, ou quando aventuras mais excitantes acenam de longe.....A essa aptidão os turistas dão o nome de liberdade, autonomia ou independência e prezam isso mais do que qualquer outra coisa, uma vez que é conditio sine qua non de tudo o que seus corações mais desejam"

Fim das citações. E agora eu mesma.

Se vocês observarem bem, a fotografia é uma das mais importantes peças da vida do turista e nunca vimos tanta gente fotografando e viajando, compartilhando suas fotos no Facebook (ou Orkut, ou Olhares, ou quaisquer outros sites) etc. Todos fazem esta espécie de jornal de si mesmo, contando onde estiveram, com quem, como e sempre as coisas parecem fluir sem qualquer definição maior por parte do "turista".

Na verdade, apesar de viajar muito e adorar fotografia, sou o inverso do turista- nesta conceituação de Bauman.

Primeiro porque meu tempo de estadia em cada lugar onde vou é sempre superior aos famosos 3 ou 4 dias que as excursões e afins reservam aos seus participantes. Segundo que minhas viagens sempre acontecem como visitas aos meus amigos e não fico apenas visitando os pontos turísticos e sim interagindo com meus amigos, com os quais sou envolvida geralmente antes e depois destas viagens, por muitos anos (salvo uma ou outra excessão).

Mas o terceiro e principal ponto é que sou uma pessoa com uma vida bastante estabelecida. Tenho uma família, que freqüento e me freqüenta, tenho amigos que me acompanham há pelo menos 30 anos, tenho uma carreira estabelecida já há mais de 30 anos. Vou nos mesmos restaurantes- enquanto eles duram. Faço os mesmos passeios, corro todos os dias pela manhã, meu corpo é sólido e minha vida é firme.

Ao longo destes meus 53 anos de vida, publiquei diversos livros, fiz vários cds como cantora e compositora e apesar de só ter feito um curso de fotografia do ano passado para cá e só ter comprado uma máquina boa no ano passado, já faço fotografia há muito mais tempo.

Sobre fotografia, como bem me disse um professor de fotografia analógica no Maranhão, ou se tem empatia ou não com uma foto. Às vezes acompanho as imensas discussões de alguns autores com outros aqui no site sobre aspectos técnicos da fotografia, mas preto no branco isto é de importância relativa.

No Maranhão, vive uma amiga de dezenas de anos, Marilia de la Roche, jornalista, uma brasileira que vivia na França e tornou-se cidadã francesa, espírito crítico e uma verdadeira guerrilheira cultural ambulante, que com frequência ganha prêmios de fotografia no Brasil e fora do Brasil, fazendo suas fotos numa máquina muito simples, barata mesmo, com fotos que muitas vezes contém erros de fotometria etc mas de uma força em suas imagens que raramente vejo por aí.

Marilia de La Roche jamais faz photoshop em suas fotos e os concursos onde entra (e muitas vezes ganha e os prêmios são em dinheiro real) exigem que as fotos sejam livres de photoshop.

São pura fotografia, sem este negócio de máquina cara que consegue fazer o impossível pela própria potência da máquina ou esta brincadeira divertida chamada photoshop que falseia completamente o que realmente foi uma foto em seu original.

Marilia não é turista. Ela tem seus pés fincados na terra e na realidade dura da vida. Suas fotos têm uma força que primeiro vem do que ela faz questão de registrar e da espontaneidade das suas fotos. Mas vale para as fotos de Marilia o mesmo que para qualquer foto: ou bem se tem empatia ou não.

É isto o que tenho para dizer.

Na verdade, meu turismo está mais para peregrinação do que para turismo.
comentários
galardões
  • galardão visitas
    1000
    visitas
  • galardão popular
    foto
    popular

Máquina: Canon
Modelo: Canon EOS REBEL T3i
Exposição: 1/200
Abertura: f/7.1
ISO: 100
MeteringMode: Spot
Flash: Não
Dist. Focal: 17 mm
Dist. Focal 35mm: 153.85 mm
Software: Adobe Photoshop CS5 Macintosh

uma pessoa que vai fundo no que faz e no fundo de si mesma a cada passo

favorita de (14)